domingo, 17 de fevereiro de 2013

Queimado pelo papel





O homem é um lápis. A existência, um livro em branco. O lápis risca as páginas em branco do livro da existência e vai gastando-se. É no riscar do lápis que se constrói uma história. O lápis vai diminuindo de tamanho com o passar das linhas escritas. A vida do homem vai passando, seus dias vão terminando. Assim como o lápis, que vai riscando um papel, que está sendo queimado pelo papel em branco do livro. E com o decorrer do tempo o lápis olha de si para si e enxerga que já não é mais novinho e folha; pelo contrário, já está gasto, chegando ao fim de sua vida útil. O lápis gasto olha para o lápis novo, observa-o em todo o seu potencial e se lembra de que o seu fim está próximo. Porém não sente inveja do lápis novo, pois ele – o novo - ainda não riscou nada; ainda não escreveu nenhuma linha, nenhuma história, não criou nenhum desenho, nenhum rabisco sequer. O lápis novo ainda nada deixou para o mundo. O lápis gasto, no fim de sua existência já construiu uma história; uma história que ficará no e para o mundo. O lápis gasto é assim como o homem que chega ao final de sua existência. O homem escreve a sua história, realiza possibilidades, constrói uma obra. Que história você deixará para a humanidade ler?!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Saudade


                Sabe amor... eu estava aqui lendo sobre a saudade. Estava lendo por que é ela que está me enchendo nesse momento. Saudade é um sentimento que traz melancolia, que traz tristeza por que carrega consigo sentimentos, momentos vividos, já passados; que, no agora, estão ausentes.
                Comecei a pensar em nós dois, nos nossos momentos e em alguns dos lugares em que vivemos esses momentos. Porém, paradoxalmente, não me veio uma sensação de melancolia apenas. Veio-me um sentimento de fortalecimento. A saudade que sinto faz com que o meu amor por você se torne mais forte.
                A saudade trouxe os momentos já passados; os momentos que já estão escritos no nosso livro; que já estão cravados na nossa existência, na nossa história. Esses momentos não são mais meras possibilidades, antes, são realidades. Estão feitos. Estão construídos. E eles é que nos trouxeram para o presente. Esse presente transparente e cúmplice que vivemos.
                E trouxe também, a saudade, a certeza de que quero que esses momentos se repitam para toda a minha existência.
                Cada vez que eu sentir, que eu disser que estou com saudade de você, saiba de uma coisa: o meu amor por ti está sendo fortalecido.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Trecho da Si


Sentado no carro, parado, à beira-mar, eu penso em como a vida tem seus paradoxos. Uma maneira de medir qualitativamente é adotada e, mesmo tirando a nota máxima, se é reprovado. Quem si ajuda com o google é aprovado, quem decora é aprovado, e quem aprende?! E quem absorve alguma coisa?! Corre-se o risco de ser reprovado. Mas...é assim mesmo! O mundo é dos espertos já dizia uma moça linda e encantadora. Quem sabe "se fazer" é quem burla; é quem toma vantagem; é quem consegue amizades. É assim mesmo?! Não!! Escrevo para que não! Para que o bonitinho não consiga a vaga; para que o mentiroso não tenha crédito; para que o amigo não seja passado às escondidas; para que quem falta, falte mesmo; para que o canguru não fique; para que a senhora não se atrase; para que a leveza não seja bajulada; para que quem questiona, seja ouvido; para que quem leciona seja dado o direito à flexibilidade; para que o cavalinho-marinho tenha direitos; para que o mestre não seja o absoluto; para que quem cedo madruga não fique até tarde; para que o falador não se atrapalhe com suas palavras; para que o historiador não seja dominador; para que o fator X não seja uma icógnita; para que a comédia não seja censurada; para que o pseudônimo não vá à justiça; para que a primogênita não seja pior que a segunda; e para que a cantiga não fique de final.

sábado, 18 de agosto de 2012

Será revelado o teu caminho?


“O Senhor confia os seus segredos aos que o temem, e os leva a conhecer a sua aliança” (Salmos 25:14)
                Chegar perto de Deus. Esse é um dos caminhos que todo cristão deveria seguir. Conhecê-Lo; estar próximo dele. Tê-Lo como um Pai e não como um velhinho barbudo e castigador.  A nossa busca diária com Deus deve existir. Intimidade é tudo que ele deseja. Aba quer ser nosso amigo e contar os Seus segredos para aqueles que o conhecem.
                Os segredos de Deus são as condições a respeito do nosso caminhar com ele. Assim como diz no versículo quatorze do capítulo vinte e cinco do livro de Salmos, “O Senhor Deus é amigo daqueles que o temem e lhes ensina as condições da aliança que fez com eles”. Deus ama a todos da mesma maneira, mas confia apenas naqueles que estão perto dele. Aba quer nos confiar os segredos dele, mas para isso temos que reconhecer a Sua santidade, conhecê-Lo e compreender como realmente ele é. E só assim, parafraseando o versículo cinco do capítulo dois do livro de Provérbios, é que nós entenderemos o que é temer o Senhor e acharemos o conhecimento de Deus.
Temer a Deus traz o seu grande amor. Assim como está escrito no Salmo Davídico, “Pois como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem”. O temor do Senhor também é, como diz Salomão em Provérbios quatorze versículo vinte e sete, fonte de vida. Temer é estar vivo nele. Temer é seguir a sua palavra, caminhar de acordo com a vontade de Aba. O temor traz ainda a salvação e com ela, a glória habitará na terra.
A glória habita na terra por meio da salvação dos que o temem. Os que o temem e que confiam no Senhor de todo o coração acharão o conhecimento de Deus e não se apoiarão no seu próprio entendimento, mas reconhecerão o Senhor em todos os seus caminhos e ele orientará as suas veredas. Aba nos ensinará as condições da aliança que fez com cada um de nós.
Condições já escritas, antes mesmo de nós sabermos. Mas que só e só saberemos se nos achegarmos a Deus. Moisés passara quarenta dias e quarenta noites no monte; ele foi até o Senhor para receber as tábuas de pedra com a lei. Acompanhe em Êxodo 24:12, “ Suba o monte, venha até mim, e fique aqui; e lhe darei as tábuas de pedra com a lei e os mandamentos que escrevi para a instrução do povo”. Lei aqui tem o sentido de regular; de guiar; de nortear o povo a um caminho a ser seguido para estar em aliança com Deus. Note no versículo que Deus já havia escrito a lei antes de Moisés conhecê-la. Deus já tinha um norte para o povo de Israel antes de o mesmo se tornar conhecedor da lei. Isso me fascina!

Para cada um Deus já tem um norte estabelecido antes do mesmo se tornar conhecido. Aba quer nos confiar as condições da sua aliança, quer nos contar os seus segredos, quer orientar o nosso caminho estreito. A cada um cabe o querer de ser sabedor do norte, desse caminho que Deus estabeleceu antes mesmo da fundação do mundo. Esse querer-ser-sabedor implica em temer a Deus, envolve estar perto dele.  Subir o monte e ficar próximo, ouvi-lo.
Assim sendo, Aba só contará as condições da aliança, ou seja, o caminho a ser seguido, para aqueles que o temem e que o buscam. “Venha até mim e fique aqui; e lhe darei as tábuas da lei” (Ex 24:12), essa é a condição para que Deus nos conte os segredos da aliança Dele para com a gente.

domingo, 24 de junho de 2012

Ser-um-vaso


              No livro de Êxodo 33:7 Moisés, para buscar o Senhor costumava montar uma tenda fora do arraial, bem longe do arraial. Vamos acompanhar esse versículo: “Moisés costumava montar uma tenda do lado de fora do acampamento; ele a chamava de Tenda do Encontro. Quem quisesse consultar o Senhor ia à tenda, fora do acampamento.”
            Na continuação do texto vemos que, quando Moisés ia à Tenda fora do acampamento, o Senhor falava com Moisés como quem fala com seu amigo. Moisés saía do arraial, ele deixava no arraial as situações do cotidiano, do seu dia-a-dia. Para consultar o Senhor e para Deus falar com ele como quem fala com seu amigo Moisés deixava de lado as preocupações da vida. Como um vaso, procurava se esvaziar, para só assim o Senhor falar com ele.
            Precisamos entender o real sentido de ser-um-vaso. Moisés entendeu esse significado e conseguiu falar com o Senhor face a face. Mas o que é ser-um-vaso? Qual é a essência em ser-um-vaso?
            Pensemos agora em um vaso, a sua base, as suas paredes e o vazio central; imaginou?! Agora vamos analisar: qual seria a serventia de um vaso se o mesmo não tivesse esse vácuo no centro de sua forma? Você já pensou nisso? Serviria para nada, você concorda comigo? Talvez apenas para ser um peso e segurar alguma porta e não deixar a mesma bater. Pois bem, a essência do vaso está no seu vazio e, a partir desse vazio, ter-se a possibilidade de enchê-lo. O vaso só pode vir a se encher porque antes de tudo ele é vazio. Preliminarmente, é o vazio que faz o vaso. O vaso não tem sentido se não tiver essa característica do vazio e essa possibilidade de encher-se. O buraco central do vaso além de representar o vazio nos traz um sentido de abertura à alguma coisa. Vazio e plenitude. Isso é ser-um-vaso.
            Nós precisamos sair do arraial, deixar nossas preocupações diárias de lado para que o Senhor fale conosco. Parar com o nosso ativismo; esvaziar-nos. Somos vasos que para que o Senhor encha-nos dEle precisamos esvaziar-nos de nós mesmos. Lembre-se que ser-um-vaso é ser-vazio e possuir uma abertura; mas que essa abertura seja uma que nos leve para mais perto de Deus. É só estando vazio que Deus pode nos encher. Saia do seu arraial e entre na Tenda do Encontro; largue as contingências do cotidiano, se esvazie das mesmas e seja um vazio com uma abertura a Deus.      

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tenho que ter um chão


           A psicologia é uma ciência bastante ampla, possui várias áreas teóricas assim como também várias áreas de atuações. É sabido que para atuar em qualquer área que seja é preciso ter uma fundamentação teórica sólida.
            Como todo aluno de graduação de psicologia, ao escutar o anúncio da professora de que a turma visitaria uma clínica de saúde mental fiquei curioso, pois teria a oportunidade de olhar na prática a atuação de um psicólogo; além de conhecer as políticas de uma instituição que trabalha nessa área; e também ter a chance de observar a discrepância entre teoria acadêmica e prática. No primeiro dia, um discurso longo e cansativo, porém não menos importante, sobre um pouco do funcionamento da clínica; falou-se desde o procedimento da admissão de pacientes até a liberação dos mesmos. Após esse discurso partiu-se para a parte em que um dos psicólogos da clínica apresentaria a sua contribuição dentro do funcionamento da instituição. O segundo dia começou com os estudantes assistindo a um grupo onde os pacientes são ouvidos pela equipe técnica da clínica; no outro momento discutiu-se com o psicólogo a eficiência dessa política enquanto diminuição do sofrimento dos pacientes da clínica. E no último dia, houve um contato mais demorado com alguns pacientes e a oportunidade de conhecer a história de alguns deles; logo após, uma conversa com o psicólogo sobre as nossas impressões dessas três manhãs de visitas na clínica.
Num primeiro momento é difícil ver um número assustador de pacientes e não se perguntar como é que eu, enquanto psicólogo, poderia intervir nesse local.  Essa foi a dúvida que eu carreguei durante o período de visita.



            Chão é tudo aquilo que me sustenta, não necessariamente – ou tão somente – o chão de terra ou de pedra. Jesus Cristo, a família, a música, a psicologia são o meu chão. Pois bem, como já dizia o poeta chão é tudo aquilo que me sustenta, e dentro da psicologia cada profissional tem – ou pelo menos deveria ter - um chão por onde andar; ter uma fundamentação teórica sólida. Tenho que ter um chão. Esse foi o resumo da minha experiência nos dias de visita à clínica. Dentre tantas coisas que eu pude e que observei, a que mais me chamou a atenção foi a diferença de possibilidades de atuação (no sentido mais amplo da palavra) entre um profissional que tem uma base sólida e outro que não tem uma fundamentação teórica firme. Já é de se saber que para fazer um trabalho bem feito tem que estudar e estudar bastante.  Porém os acadêmicos estudam apenas para tirar uma boa nota, para passar na cadeira; muitas vezes esquecem o real sentido da coisa. Estudar, não só para passar, mas também para ter um chão firme onde, só assim, será possível realizar um trabalho consistente. Conhecer a prática de um profissional que tem uma base sólida é apaixonante! Ver como é possível fazer aquilo que você se dispôs lá no início do curso. Ter uma fundamentação teórica sólida é essencial e isso reflete diretamente na atuação do profissional. E foi esse o observado, a competência de um colega, que tem uma base teórica sólida, como iluminação, como exemplo para quem ainda está na metade da graduação, porém no começo de uma vida junto à psicologia.
            Construir esse chão não é fácil, é desafiador! Por isso a incompetência bate à porta. Mas é justamente o que eu propus fazer, enquanto psicólogo, é que me motiva a ter algo que me sustente, que me sirva de apoio. Citando Viktor Frankl: “Isso quer dizer que ser humano significa dirigir-se além de si mesmo, para algo diferente de si mesmo, para alguma coisa ou alguém. Em outras palavras, o interesse preponderante do ser humano não é por quaisquer condições internas dele próprio, sejam elas prazer ou equilíbrio interior, mas ele é orientado para o mundo lá fora, e neste mundo procura um sentido que pudesse realizar ou uma pessoa que pudesse amar. E, com base em sua autocompreensão ontológica pré-reflexiva, tem conhecimento de que ele se autorrealiza precisamente à medida que se esquece de si próprio; e ele se esquece de si próprio novamente à mesma medida que se entrega a uma causa à qual serve, ou a uma pessoa que ama.”
              E é nessa tarefa de ajudar o outro é que eu me realizo. Mas só posso ajudar o outro de forma relevante se eu tiver um chão.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Indulgências e Bençãos

            No século XVI um grande escândalo provocou uma revolta dentro da igreja cristã. Essa revolta ficou conhecida como Reforma; e foi encabeçada por Martinho Lutero que estava insatisfeito com a forma de a igreja conduzir algumas questões. O ponto-chave que fez eclodir a Reforma foi a venda das indulgências. Nos dias atuais a igreja brasileira tem vendido, o que eu chamo de “novas indulgências”. Será que teremos uma nova reforma?
             Todos sabem que a igreja, a partir do momento em que fora incorporada ao império romano no séc. III por Constantino, tornou-se ao longo dos séculos uma instituição muito poderosa. E é válido lembrar: o poder em detrimento da pureza doutrinária e do objetivo real da igreja. Em meados do século XVI a igreja tinha influência sobre todas as áreas possíveis da sociedade da época, desde a educação até a política. Porém esse poder foi conseguido pela corrupção das autoridades religiosas da época. A decadência moral foi se instalando devido a queda do império romano que trouxe a descentralização do poder e a consolidação do feudalismo, onde justamente a influência dos senhores feudais trouxe a decadência moral do clero.
Com o clero corrompido vieram os excessos em relação às doutrinas cristãs da época. Um desses excessos foi a venda de indulgências. Indulgência é o livramento da conseqüência de um pecado, este já perdoado. João Tetzel foi um famoso vendedor de indulgências, ele dizia que, se alguém comprasse uma indulgência para um parente falecido “no momento em que a moeda tocasse no fundo do cofre, a alma saltava do inferno e ia direto para o céu”. O motivo pelo qual as pessoas compravam essas indulgências era que elas queriam se livrar do sofrimento, queriam livrar-se do mal causado pelo desvio de sua conduta. O excesso era tão grande que as pessoas “livravam o sofrimento” até de parentes que já haviam morrido; compravam as indulgências e o morto ia direto do inferno ao céu com apenas um pulo.



E cá estamos, no começo do século XXI, uns quinhentos anos pós-reforma. Vivemos em uma sociedade capitalista, onde o individualismo tem ganhado força; sociedade que valoriza o ter em detrimento do ser. Onde a realidade da igreja, que nasceu da reforma, é preocupante, pois a igreja agora é conhecida, famosa, é amiga dos grandes sistemas que controlam o mundo; é uma igreja que também, muitas vezes tem valorizado o ter. Esse tem sido o discurso: “Venha para minha igreja que Deus te dará!”. A igreja reformada que nasceu no século XVI se corrompeu. As indulgências dos dias atuais são as bênçãos de Deus, o quanto você pode pagar será o quanto que Deus vai te abençoar. Você quer um carro, plante um carro – assim é o discurso – ou oferte uma casa para ter uma casa maior.



Do mesmo jeito que ocorrera no século XVI: com a igreja corrompida vieram os excessos. O excesso de hoje é a troca da benção pela “oferta”. Na verdade não é uma oferta, é uma compra. Eu pago, logo quero a mercadoria; seja um emprego, uma casa, um prato de comida, um carro, seja a cura de uma doença. Repare que essa troca é sempre em busca do livrar o sofrimento, assim como o povo do século XVI, comprando as indulgências faziam. O sofrimento que está escancarado nos dias de hoje é o sofrimento do não ter. Se eu não tenho uma casa, um emprego, um carro eu sou uma pessoa mal vista pela sociedade devido o sistema de valores que se estabelece nos dias atuais, sistema que valoriza o ter em detrimento do ser. Logo a igreja percebe isso e com um desvio doutrinário gritante ela oferece aquilo que a sociedade deseja. A igreja oferece o ter.
A igreja corrompida e a sua busca pelo poder, e o povo e a sua busca por fugir do sofrimento. Até quando a igreja insistirá nisso? Até quando o povo insistirá nisso?! Até o dia em que a igreja despertar e ver que não é pelo tamanho do seu poder, e sim pelo tamanho do poder de Jesus Cristo que ela se tornará vitoriosa. E até o dia em que o povo perceber que não adianta fugir do sofrimento, este é parte integrante da existência humana e o homem tem de aceitá-lo, tem de dar uma nova visão a ele, e aí sim partir para uma caminhada verdadeira com Cristo.