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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Como se fosse a última vez

A hora de ir à tua casa se aproxima. Penso se tenho ido no modo automático. Ou não. Se me banho, me arrumo, me perfumo e vou à tua casa com a ideia de que esse, o dia de hoje ser, talvez, a última chance que tenho de te encontrar. Penso e vejo que a posição que tenho tomado é a do desleixo, penso que a vida ainda será longa por que hoje, ainda sou jovem (e quem disse que a duração da vida tem alguma relação com os meus poucos anos?!). 

Mas tento não me prender a isso e nego esse paradigma. Imagino que terei anos duradouros pela frente e por isso vou ao teu encontro de qualquer jeito. Penso que ainda terei várias oportunidades para ir, como se fosse a última vez e finalmente chegar o momento de aproveitar tudo o que tiver ao meu alcance. Ainda terei chances de me preparar adequadamente. Ainda conseguirei ir ao teu encontro com o coração aberto e a mente vazia. O coração aberto para te sentir. E a mente vazia para não pensar nas coisas temporais que passam diante dos meus olhos. Com o coração aberto para sentir o teu afago. Com a mente vazia das preocupações do cotidiano. Com o coração aberto, pronto para afastar todas as angústias da minha alma. Com a mente vazia para quebrar todos os sofismas. 

Ora, e se, eu soubesse que hoje fosse minha última oportunidade de te olhar, como eu iria até você? Com certeza usaria a minha melhor roupa, o meu melhor perfume, me prepararia da melhor forma, aproveitaria cada momento. Estaria diante de ti, não apenas fisicamente como o tenho feito, mas também com todo o meu entendimento, com toda minha alma e com todo o meu coração. Cada momento seria único e o levaria comigo para a eternidade. Mais ainda, e se, toda vez que, quando estivesse me arrumando para ir ao teu encontro, eu me comportasse como se essa fosse a última vez?


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Pai nosso, Perdoa-nos as nossas distâncias

“Pai nosso [...], perdoa-nos as nossas dívidas...”

                O materialismo ou o capitalismo - ou quem sabe os dois - fizeram-me acreditar em uma visão simplista e reducionista desse pedaço da oração do Pai Nosso feito no sermão do monte por Jesus de Nazaré.
                O ranço do materialismo trouxe até mim uma mentalidade de que pedir perdão às minhas dívidas era pedir perdão por aquilo que falta ou deixei de pagar seja por ausência de dinheiro, de caráter ou de planejamento. Sempre acreditei nessa máxima. “Perdoa minha dívida” é igual a “perdoa aquilo que não paguei ou que usurpei do outro”, materialmente falando.
                A filosofia de Jesus é abarcar o homem todo, em todas as suas circunstâncias. E toda fala de Jesus escrita em suas biografias tem essa tônica pelas entrelinhas. É preciso percebê-la. Por que na oração do Pai Nosso seria diferente? Por que eu sempre penso nessa parte, em específico, como uma proposta materialista? Esse é o problema da não reflexão. Orar, fazer uma reza, repetir uma ladainha; a automatização do Pai Nosso traz uma cegueira às palavras verbalizadas por Jesus e escritas por seus biógrafos. Bom, mas então, o que estaria nas entrelinhas desse: “Perdoa-nos as nossas dívidas...” ?!
                 A visão de Jesus, a visão sobre o homem todo em todas as suas circunstâncias, abre o horizonte da palavra dívida. A chamada de Jesus, o existencialismo de Cristo sempre foi um existir para fora de si. Ele é um exemplo de uma pessoa que se esqueceu de si mesmo e lançou-se para fora, dedicando-se a uma causa.  

                Um dos sinônimos de dívida é a palavra distância, logo Jesus orou ao Eterno pedindo perdão pelas nossas distâncias. Distâncias baseadas no evangelho para o homem todo em todas as suas circunstâncias. Distâncias de suporte àquele que precisa de ajuda; àquele que precisa de um pão para fazer uma refeição; àquele que precisa de uma roupa para vestir; que precisa de um abraço para sentir a sua angústia existencial passar. Distância do chamado de Jesus. Distância do ser-para-fora que o nazareno nos chama a ser; distância do doar-se em contrapartida a aproximação do egocentrismo e do meu-eu. Distância da consciência sobre essa perspectiva, que é a ótica do negar a si mesmo.

                “Pai nosso [...], perdoa-nos as nossas distâncias...”